Um diretor hipnotizava alunos para ajudar com ansiedade, concentração, dor e desempenho. Depois, três estudantes morreram em circunstâncias diferentes. A coincidência é perturbadora — mas coincidência é a mesma coisa que causa?
Poucas histórias envolvendo hipnose parecem tão feitas para um documentário de true crime quanto esta. Um diretor de escola da Flórida, George Kenney, passou anos utilizando técnicas de hipnose com estudantes, funcionários e outras pessoas da comunidade escolar. Ele dizia que a técnica podia ajudar em ansiedade, concentração, desempenho esportivo e outros problemas. Muitos pais autorizaram as sessões e algumas pessoas relatavam benefícios.
Então aconteceu uma sequência assustadora: três estudantes que haviam passado por sessões com Kenney morreram em um intervalo de poucas semanas em 2011. Marcus Freeman morreu em um acidente de carro. Wesley McKinley morreu por suicídio. Brittany Palumbo também morreu por suicídio.
Pronto. Está criada a história perfeita para uma manchete: “diretor hipnotiza alunos e três morrem”. Só que existe uma diferença enorme entre dizer que três pessoas morreram depois de terem sido hipnotizadas e dizer que a hipnose provocou essas mortes.
Marcus Freeman, um dos três estudantes envolvidos no caso. Foto: North Port Police Department/Facebook, reproduzida pela PEOPLE.
O caso que voltou a ser discutido
O caso aconteceu na North Port High School, na Flórida. George Kenney era o diretor da escola e havia incorporado a hipnose ao que apresentava como uma ferramenta para ajudar estudantes. Segundo as reportagens e investigações citadas ao longo dos anos, ele realizou sessões com dezenas de pessoas — estimativas públicas ficam em torno de 70 a 75 estudantes, funcionários e pais entre 2006 e 2011.
O detalhe importante é que isso não era apresentado como um truque de palco. A proposta era mais parecida com uma técnica de relaxamento, foco e sugestão. Alunos procuravam Kenney por ansiedade antes de provas, concentração em esportes ou até para lidar melhor com dores. Há relatos de pais que deram autorização para que os filhos participassem, e pessoas da escola que diziam ter percebido benefícios.
Isso torna o caso ainda mais interessante. Se a hipnose fosse, por si só, uma espécie de “controle mental” que levasse automaticamente alguém a perder a capacidade de decidir, seria de esperar uma quantidade enorme de problemas entre dezenas de pessoas submetidas às sessões. Mas não foi isso que aconteceu.
Ao mesmo tempo, isso não significa que a atuação de Kenney tenha sido correta. Ele não era um hipnoterapeuta licenciado e acabou enfrentando acusações relacionadas à prática terapêutica de hipnose sem licença. Ele fez um acordo de no contest e recebeu pena de liberdade condicional e serviços comunitários, sem prisão. Também houve críticas porque administradores já haviam advertido que ele deveria restringir a prática.
Uma linha do tempo ajuda a colocar tudo em perspectiva
Kenney utiliza técnicas de hipnose com estudantes, funcionários e pais. As estimativas divulgadas chegam a aproximadamente 75 pessoas.
O estudante de 16 anos morre em um acidente de carro depois de sair da estrada. Ele havia aprendido técnicas de auto-hipnose com Kenney.
O estudante de 16 anos, que se preparava para uma audição musical, morre por suicídio. Kenney admitiu ter realizado uma sessão com ele no dia anterior.
A estudante de 17 anos, que havia procurado ajuda relacionada a ansiedade e desempenho em provas, morre por suicídio meses depois de uma sessão.
Marcus: talvez seja o caso mais estranho dos três
O acidente de carro
Marcus Freeman era um atleta popular da escola e recebia sessões de hipnose associadas ao desempenho esportivo e ao controle da dor. Kenney também teria ensinado o adolescente a utilizar técnicas de auto-hipnose.
Em 15 de março de 2011, Marcus dirigia com a namorada depois de uma consulta odontológica descrita nas reportagens como dolorosa. Segundo o relato dela, em determinado momento ele apresentou uma expressão estranha, aparentemente não respondeu a ela e o carro saiu da estrada, atingindo árvores. Marcus morreu e a namorada sobreviveu.
É fácil olhar para isso e pensar: “ele entrou em auto-hipnose enquanto dirigia”. Mas essa conclusão não foi demonstrada. O que existe é uma sequência de acontecimentos e uma suspeita. A possibilidade de ele ter sofrido algum efeito relacionado às técnicas ensinadas por Kenney foi levantada, mas isso é diferente de uma conclusão pericial estabelecendo que a hipnose provocou o acidente.
Existe ainda outra especulação em torno da consulta odontológica, inclusive sobre possíveis efeitos de anestesia ou do próprio procedimento. Eu teria bastante cuidado com isso também: não encontrei evidência confiável que permita afirmar que anestésicos explicaram o acidente. O ponto principal é justamente esse: há várias hipóteses, mas nenhuma delas deve ser transformada em certeza só porque encaixa bem na narrativa.
Wesley: a proximidade temporal impressiona, mas não prova a causa
Uma sessão no dia anterior
Wesley McKinley tinha 16 anos e era um jovem músico que se preparava para uma importante audição. Ele procurou Kenney para trabalhar a ansiedade e melhorar seu desempenho. Segundo as reportagens, foram realizadas três sessões, e a última ocorreu no dia anterior à sua morte.
Esse é provavelmente o elemento que mais alimentou a suspeita pública. Uma sessão de hipnose acontece; no dia seguinte, a pessoa morre por suicídio. A sequência temporal é muito próxima. É compreensível que a família, amigos e a comunidade tenham perguntado se havia uma relação.
Mas aqui é necessário fazer uma distinção importante: proximidade temporal não é causalidade. Para afirmar que uma sessão provocou um suicídio, seria necessário demonstrar um mecanismo plausível, evidências clínicas e factuais sobre o estado daquela pessoa e uma relação causal que sobrevivesse à análise de outras explicações.
Na minha leitura, o fato de Wesley estar enfrentando ansiedade e pressão por uma audição deveria ser um motivo ainda maior para que ele recebesse avaliação e acompanhamento profissional adequado, em vez de simplesmente tratar uma questão emocional complexa como um problema de concentração que poderia ser resolvido por hipnose.
Isso muda bastante a crítica que eu faria a Kenney. Não é necessário provar que ele causou a morte de Wesley para concluir que ele estava atuando além dos limites que deveria. Um diretor de escola não deveria assumir sozinho o papel de profissional de saúde mental de adolescentes, principalmente sem licença adequada e sem uma avaliação clínica completa.
Brittany Palumbo, 17 anos. Ela procurou ajuda relacionada a ansiedade e desempenho em provas. Foto reproduzida pela PEOPLE.
Brittany: cinco meses entre a sessão e a morte
Uma distância temporal que também importa
Brittany Palumbo tinha 17 anos e procurou Kenney por questões relacionadas a provas, ansiedade e desempenho acadêmico. As fontes históricas descrevem uma sessão no fim de 2010, seguida por sua morte por suicídio em maio de 2011 — aproximadamente cinco meses depois, segundo reportagens contemporâneas.
Esse caso, para mim, é especialmente importante quando falamos de causalidade. Se alguém tivesse uma sessão hoje e sofresse uma fatalidade cinco meses depois, não seria razoável simplesmente olhar para o calendário e concluir que a primeira coisa provocou a segunda.
É possível levantar uma hipótese? Claro. É possível investigar? Evidentemente. Mas hipótese precisa ser testada. E a própria história mostra como é fácil cair em um raciocínio retrospectivo: primeiro sabemos que uma pessoa morreu; depois procuramos eventos anteriores que possam parecer uma explicação.
Há pessoas próximas de Brittany que até hoje questionam se a hipnose teve algum papel. Esse sentimento é perfeitamente compreensível. Para quem perde alguém, a pergunta “e se?” pode permanecer por décadas. Mas uma dúvida legítima não se transforma automaticamente em evidência científica de causalidade.
Então hipnose é perigosa?
Aqui acho que vale separar o caso de George Kenney da própria hipnose. A técnica não é simplesmente “controle mental”, como filmes e programas de televisão frequentemente sugerem.
Em termos gerais, a hipnose envolve um estado de atenção concentrada, redução relativa da atenção a estímulos periféricos e maior receptividade a sugestões. Pessoas podem experimentar relaxamento e mudanças na percepção de dor, ansiedade ou outros aspectos da experiência. A literatura científica reconhece que a hipnose pode ter aplicações clínicas específicas, principalmente quando integrada a cuidados profissionais adequados.
A Mayo Clinic, por exemplo, descreve a hipnose como uma alteração de consciência associada a maior relaxamento, foco e concentração. A instituição também cita possíveis aplicações para estresse, ansiedade e controle da dor. A American Psychological Association também descreve evidências para determinadas aplicações clínicas, embora os resultados variem conforme a condição e a pessoa.
Não é sono: a pessoa hipnotizada normalmente continua consciente e pode perceber o que está acontecendo.
Não é controle absoluto: hipnose não significa automaticamente que alguém perde a capacidade de decidir ou vira um “robô”.
Sugestão importa: a técnica trabalha justamente com atenção, expectativa e sugestão.
Profissional importa: quando o objetivo é tratar problemas médicos ou psicológicos, a prática deve estar inserida em cuidados profissionais apropriados.
Isso também explica por que a situação de Kenney merece crítica mesmo que a hipótese de ele ter causado as mortes seja rejeitada. O problema não é simplesmente “hipnose existe”. O problema é quem está fazendo, em quem, com qual objetivo, com que treinamento e com quais limites.
O ponto que muita gente perde: ele hipnotizou dezenas de pessoas
Existe um detalhe estatístico e lógico que considero fundamental. Kenney não hipnotizou apenas os três estudantes que morreram. As investigações apontaram para algo na faixa de 70 a 75 pessoas ao longo dos anos, incluindo alunos, funcionários e pais.
Isso não prova que a hipnose foi inocente nos três casos. Seria errado usar uma espécie de “não aconteceu nada com os outros, então não poderia ter acontecido com esses”. Cada pessoa é diferente.
Mas também é errado fazer o raciocínio contrário: “três pessoas morreram depois de serem hipnotizadas, então a hipnose matou as três”. O conjunto completo de pessoas submetidas à prática precisa entrar na análise.
Se uma técnica tivesse uma relação forte e direta com suicídio ou acidentes fatais, seria esperado encontrar evidências muito mais robustas além desses três casos. O que temos é uma sequência trágica e extremamente chamativa, mas isso não é a mesma coisa que uma demonstração de mecanismo causal.
“Mas os pais autorizavam” — isso resolve?
Não completamente. A autorização dos pais é um dado importante, mas não transforma automaticamente uma prática em adequada.
Há relatos históricos de que Kenney buscava autorização dos pais para determinadas sessões e de que a hipnose era apresentada como uma técnica de relaxamento, concentração e desempenho. Em alguns casos, a mãe ou o pai acompanhava a sessão. Isso é muito diferente de uma situação em que um adulto simplesmente hipnotiza crianças escondido das famílias.
Por outro lado, autorização dos pais não substitui competência profissional. Imagine um professor oferecendo uma intervenção psicológica para um adolescente com ansiedade intensa. Mesmo que os pais autorizem, isso não significa que o professor esteja qualificado para diagnosticar ou tratar aquele problema.
Essa é, para mim, a crítica mais sólida ao caso. Não precisamos transformar Kenney em um vilão que “programou” três adolescentes para morrer para reconhecer que ele ultrapassou limites profissionais importantes.
E o fato de ele ter sido punido?
Também é importante não confundir as coisas. Kenney foi acusado e posteriormente fez um acordo de no contest relacionado à prática de hipnose terapêutica sem licença. Isso estabelece uma questão jurídica sobre a forma como ele exercia a atividade.
Mas a punição por praticar sem licença não equivale a uma condenação por causar as mortes. Essa diferença é essencial.
As famílias dos três estudantes também moveram ações contra o distrito escolar, e houve um acordo financeiro posteriormente. Um acordo civil, porém, também não deve ser apresentado como prova de que a hipnose foi demonstrada como causa das mortes. Processos civis, acordos e responsabilidades administrativas têm padrões e objetivos diferentes de uma conclusão científica sobre causalidade.
Por que essa história parece tão convincente?
Porque nosso cérebro é muito bom em encontrar padrões.
Imagine três acontecimentos independentes. Um deles é um acidente de carro. Outro é um suicídio. Outro é mais um suicídio. Agora descubra que as três pessoas conheciam o mesmo homem e tinham passado por uma prática incomum com ele.
A sensação imediata é: “não pode ser coincidência”.
Mas “parece improvável” ainda não responde à pergunta causal. Para chegar a uma conclusão, precisamos investigar o histórico de cada pessoa, os fatores de risco, as circunstâncias específicas, a natureza das sessões, o intervalo de tempo, o que aconteceu depois das sessões e, principalmente, se existe um mecanismo conhecido capaz de explicar os resultados.
É justamente por isso que histórias de true crime podem ser fascinantes e perigosas ao mesmo tempo. Um documentário pode reunir os fatos de uma forma dramática, colocando lado a lado uma sessão de hipnose e uma morte. Isso cria uma narrativa extremamente poderosa. Só que narrativa e demonstração científica são coisas diferentes.
Minha conclusão: a hipnose não precisa ser culpada para o caso ser preocupante
Depois de olhar para os três casos separadamente, minha impressão é que não existe base suficiente para afirmar que George Kenney provocou diretamente as mortes por meio da hipnose.
Marcus Freeman: existe uma sequência estranha envolvendo auto-hipnose, uma consulta odontológica e o acidente. A namorada relatou uma mudança estranha no comportamento imediatamente antes da colisão. É legítimo levantar a hipótese de que algo tenha acontecido, mas não é suficiente para afirmar que ele estava hipnotizado ao volante. Também não encontrei evidência sólida para transformar a hipótese sobre anestesia odontológica em explicação definitiva.
Wesley McKinley: a proximidade entre a última sessão e o suicídio é muito mais difícil de ignorar emocionalmente. Ainda assim, proximidade temporal não demonstra causalidade. O fato de Wesley estar lidando com ansiedade e pressão relacionada a uma audição mostra justamente por que uma avaliação profissional de saúde mental seria mais apropriada do que uma intervenção informal de um diretor.
Brittany Palumbo: aqui o intervalo de aproximadamente cinco meses entre a sessão e a morte torna ainda mais difícil sustentar uma relação direta apenas pela cronologia. Isso não elimina a possibilidade de uma influência desconhecida, mas também não oferece evidência suficiente para dizer que a hipnose causou o suicídio.
Então, sim: eu discordo da ideia de que podemos simplesmente colocar essas três mortes na conta da hipnose. Ao mesmo tempo, eu também não diria que o caso foi irrelevante ou que Kenney não fez nada de errado.
Para mim, a conclusão mais razoável é outra: ele estava realizando uma prática que podia ter usos legítimos em contextos adequados, mas estava fazendo isso dentro de uma escola, com adolescentes, sem a licença profissional apropriada e apesar de advertências administrativas. Isso já é um problema sério por si só.
E talvez essa seja a parte mais interessante dessa história. Não precisamos acreditar em “controle mental” para reconhecer os riscos de colocar uma técnica psicológica nas mãos de alguém que não deveria estar fazendo aquele trabalho. Da mesma forma, não precisamos atribuir três mortes à hipnose só porque existe uma coincidência assustadora entre as sessões e as tragédias.
O caso continua sem uma resposta simples. E justamente por isso ele merece ser discutido com menos sensacionalismo e mais cuidado: três jovens morreram, uma comunidade ficou marcada e um diretor ultrapassou limites profissionais. Tudo isso é fato. A afirmação de que a hipnose foi a causa direta das mortes é outra coisa — e essa parte continua sendo uma hipótese, não uma conclusão demonstrada.
Fontes consultadas
Este texto é uma análise editorial baseada em reportagens sobre o caso e em fontes médicas/científicas sobre hipnose.
- Folha de S.Paulo / F5 — Caso de diretor de escola que hipnotizou estudantes que morreram vira tema de documentário
- PEOPLE — Did the Principal of a Florida High School’s Private Hypnosis Sessions with Students Lead to 3 Deaths?
- ABC News — Hypnotist Principal Faces One Year in Jail, If Guilty
- Mayo Clinic — Hypnosis
- American Psychological Association — Uncovering the new science of clinical hypnosis
- NCCIH — Hypnosis
Sansão Seara • Conteúdo editorial e análise
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