O Advogado que Hipnotizava Mulheres: Será que Hipnose Pode Realmente Fazer Isso?


Existe uma história envolvendo hipnose que parece roteiro de filme. Só que não é ficção.

Em Ohio, nos Estados Unidos, um advogado chamado Michael Fine acabou condenado a 12 anos de prisão depois de se declarar culpado de acusações de sequestro e tentativa de sequestro envolvendo seis mulheres, todas com especificação de motivação sexual.

Segundo as autoridades e os documentos apresentados no caso, Fine usava seu conhecimento de hipnose durante encontros com clientes mulheres e transformava essas situações em oportunidades para satisfazer seus próprios desejos sexuais.

O caso veio à tona depois que uma cliente começou a desconfiar de que alguma coisa muito estranha estava acontecendo durante os encontros com o advogado. Ela passou a gravar conversas e posteriormente colaborou com a polícia em uma operação com equipamentos de áudio e vídeo escondidos.

O resultado foi uma gravação que ajudou a expor o esquema.

Michael Fine durante reportagem da ABC News sobre o caso
Michael Fine em imagem publicada pela ABC News em reportagem sobre o caso.

E aí aparece a pergunta que provavelmente fez você clicar neste texto:

Hipnose realmente pode fazer uma pessoa fazer algo contra a propria vontade?

Minha opinião é: sim, eu considero que isso é possível.

Mas calma. Isso não significa que eu acredite nessa versão cinematográfica em que o hipnotizador vira uma espécie de hacker do cérebro humano e consegue transformar qualquer pessoa em um robô.

Não é disso que estou falando.

Estou falando de algo muito mais interessante: uma sugestão hipnótica pode alterar profundamente a experiência subjetiva, a percepção e determinados comportamentos de uma pessoa.

E eu digo isso também por experiência própria.

Eu já fiz uma pessoa se apaixonar por um coqueiro

Eu mesmo já fiz demonstrações de hipnose em que uma pessoa passou a experimentar sentimentos absurdos como se fossem reais.

Uma delas envolveu justamente uma situação que, fora do contexto da hipnose, seria completamente ridícula: se apaixonar por um coqueiro.

E não ficou apenas no “eu gosto do coqueiro”.

A pessoa realmente entrou na experiência proposta e chegou a beijar o coqueiro.

Eu gravei essa demonstração e publiquei no YouTube.

Demonstração publicada no meu canal mostrando uma sugestão hipnótica envolvendo atração por um coqueiro.

Você pode assistir ao vídeo acima ou abrir diretamente no YouTube.

E aqui está um detalhe importante: se eu aplicasse uma sugestão parecida em outra pessoa, ela também poderia apresentar uma resposta semelhante. Mas isso não quer dizer que todas as pessoas reagiriam exatamente do mesmo jeito ou com a mesma intensidade.

A própria American Psychological Association descreve a hipnose como um procedimento em que sugestões podem provocar mudanças em sensação, percepção, cognição, emoção e comportamento, ressaltando que as pessoas respondem à hipnose em graus diferentes. 

É justamente essa diferença que muita gente ignora.

O fenômeno existe. O “controle mental absoluto” é outra coisa

Quando alguém ouve a palavra hipnose, geralmente pensa em duas possibilidades completamente opostas.

A primeira é o sujeito que acha que hipnose é tudo mentira.

A segunda é a pessoa que imagina que um hipnotizador pode simplesmente assumir o cérebro de qualquer indivíduo e obrigá-lo a fazer qualquer coisa.

Eu acho que os dois extremos estão errados.

A literatura científica atual trata a hipnose como um fenômeno real de sugestão, atenção e alteração da experiência subjetiva. Uma revisão sistemática de 2024 encontrou evidências de que sugestões hipnóticas podem alterar percepção, ações, cognição e sensação de agência, ao mesmo tempo em que destaca que não existe consenso único sobre o mecanismo responsável por esses efeitos. [Revisão sistemática — Consciousness and Cognition]

Então sim: uma sugestão pode realmente produzir um efeito muito forte.

Mas isso não significa que o hipnotizador ganhou um controle remoto da mente de outra pessoa.

E é justamente aí que o caso Michael Fine fica ainda mais interessante.

O que Michael Fine fazia?

De acordo com os relatos de investigação e documentos do caso, Fine não simplesmente chegava para uma cliente e dizia “você está hipnotizada”.

O processo era muito mais parecido com técnicas de relaxamento e condução de atenção.

Uma das mulheres contou às autoridades que Fine falava sobre relaxamento, meditação e mindfulness. Em determinadas situações, ele pedia que ela respirasse, fechasse os olhos e prestasse atenção à sua voz. Também existem relatos de foco visual e contagem regressiva.

Isso faz sentido dentro de uma indução hipnótica convencional: atenção focada, redução de distrações, relaxamento e sugestões progressivamente mais específicas.

O problema é o que Fine fazia depois.

Segundo os documentos apresentados pelas autoridades, ele passava a inserir sugestões e conversas de natureza sexual enquanto a mulher estava naquele estado.

Em outras palavras: ele aparentemente não separava “hipnose” e “abuso”. Ele transformava a própria situação profissional em contexto para conduzir a cliente a uma experiência sexual que ela não havia consentido.

A News 5 Cleveland, por exemplo, relatou que, durante a operação policial, Fine disse à cliente que aquilo seria apenas um exercício de respiração e, em seguida, começou a conduzir a situação para conteúdo sexual. A operação terminou com a entrada dos policiais no escritório.

A investigação foi descoberta por causa da própria cliente

Esse detalhe é importante.

Fine não foi descoberto porque alguém resolveu simplesmente fazer uma acusação aleatória contra ele.

Uma cliente ficou desconfiada porque não conseguia reconstruir completamente determinadas interações.

Segundo os registros divulgados na época, ela gravou conversas telefônicas e levou o material à polícia. As gravações continham linguagem sexual que aparecia misturada com as conversas jurídicas. Posteriormente, ela concordou em participar de uma operação policial usando equipamentos de gravação escondidos.

Durante esse encontro, investigadores acompanharam o que acontecia e registraram a situação.

A ABC News também publicou material sobre a operação e entrevistou uma das mulheres que relatou ter sido vítima de Fine.

Entrevista de vítima relacionada ao caso Michael Fine na ABC News
Imagem de uma reportagem da ABC News sobre uma das mulheres que relatou ter sido vítima de Michael Fine.

E por que isso pode funcionar?

Agora chegamos à parte que provavelmente mais interessa para quem estuda hipnose.

Imagine que uma pessoa esteja sentada diante de você.

Você começa a reduzir distrações.

Faz a pessoa prestar atenção na sua voz.

Utiliza respiração e relaxamento.

Faz perguntas sobre sensações.

Direciona a atenção para determinadas experiências.

Depois utiliza sugestões.

Em uma pessoa altamente responsiva, essas sugestões podem produzir experiências extremamente convincentes.

A pessoa pode sentir determinada emoção.

Pode interpretar uma sensação de maneira diferente.

Pode experimentar uma ação como automática.

Pode ter dificuldade de explicar racionalmente por que aquilo está acontecendo.

A APA inclusive descreve sugestões pós-hipnóticas que podem fazer uma pessoa realizar determinada ação posteriormente em resposta a uma deixa, sem necessariamente saber por que está realizando aquela ação. 

É aí que fica fácil entender como uma coisa aparentemente absurda pode parecer completamente real para quem está vivendo a experiência.

Meu exemplo do coqueiro é exatamente por isso

Quando alguém assiste ao meu vídeo e vê uma pessoa se comportando daquela maneira, pode surgir a pergunta:

“Mas ela não está fingindo?”

Essa é uma pergunta legítima.

O problema é que comportamento hipnótico não precisa necessariamente parecer uma atuação consciente no sentido comum da palavra.

A pessoa pode efetivamente experimentar a sugestão como algo espontâneo ou automático.

Isso não significa que qualquer comportamento possa ser implantado em qualquer pessoa. Significa que a mente humana é muito mais influenciável do que a ideia de “eu só faço aquilo que decidi racionalmente” sugere.

E é justamente por isso que eu acho o fenômeno da hipnose tão fascinante.

Então Michael Fine poderia realmente fazer aquilo?

Minha resposta pessoal é: eu não tenho dificuldade nenhuma em acreditar que a hipnose tenha contribuído para tornar aquela experiência real para as vítimas.

Aliás, considerando os relatos do caso, essa interpretação me parece muito mais plausível do que imaginar que tudo fosse simplesmente uma peça de teatro.

Mas existe uma diferença gigantesca entre duas afirmações:

“Hipnose pode criar experiências e comportamentos extremamente convincentes.”

e

“Hipnose permite controlar absolutamente qualquer pessoa.”

A primeira está de acordo com o que sabemos sobre sugestão hipnótica.

A segunda é uma generalização que a ciência não sustenta.

A própria APA descreve a capacidade de resposta à hipnose como variável entre as pessoas.

O mais importante: Fine não era simplesmente um hipnotizador

Esse ponto, para mim, é fundamental.

Ele era advogado.

Isso muda completamente o contexto.

As mulheres procuravam aquele homem para resolver problemas jurídicos.

Algumas estavam passando por divórcios.

Outras estavam envolvidas em disputas familiares e de custódia.

Ou seja: eram situações em que a pessoa poderia estar emocionalmente fragilizada e precisava confiar no profissional que havia contratado.

Fine conhecia detalhes pessoais dessas mulheres.

Conhecia suas preocupações.

Sabia o que elas estavam vivendo.

E ocupava uma posição de autoridade.

Essa combinação é extremamente importante quando falamos de influência psicológica.

Segundo uma reportagem da PEOPLE baseada nos registros do caso, uma das mulheres afirmou no impacto da sentença que Fine utilizou a confiança e sua posição como advogado para obter informações sobre suas vulnerabilidades e posteriormente usá-las contra ela.

Ele misturava autoridade, confiança e sugestão

É isso que torna a história tão perturbadora.

Não era simplesmente:

“Aqui está um hipnotizador fazendo um truque.”

Era um profissional em quem a cliente já confiava.

Ela estava em um ambiente de trabalho.

O que ele dizia poderia inicialmente parecer parte de uma conversa normal.

E, segundo os relatos, a linguagem utilizada podia ser apresentada como algo relacionado a relaxamento, meditação ou mindfulness.

Isso cria uma situação completamente diferente de uma apresentação de palco.

A hipnose não existe em um vácuo.

O contexto importa.

A expectativa importa.

A relação entre as pessoas importa.

A disposição da pessoa para responder às sugestões importa.

E tudo isso pode se combinar.

Uma coisa é fazer alguém beijar um coqueiro. Outra é usar isso para abusar de alguém

Essa diferença precisa ficar absolutamente clara.

Quando eu faço uma demonstração de hipnose e alguém acaba beijando um coqueiro, existe um contexto de demonstração.

A pessoa sabe que estamos fazendo hipnose.

É uma brincadeira.

É uma experiência.

O objetivo é demonstrar um fenômeno.

O caso de Michael Fine era outra coisa completamente diferente.

Segundo os registros do processo, as mulheres não estavam ali para participar de uma experiência sexual ou autorizar aquele tipo de interação.

Então não dá para usar a hipnose como desculpa.

E aqui entra uma comparação que eu gosto bastante:

Hipnose é uma ferramenta.


Uma faca na mão de um chef pode servir para preparar um prato delicioso.


Na mão de um ladrão, a mesma faca pode ser usada para cometer um assalto.


A faca não escolheu o que fazer. Quem escolheu foi a pessoa.

Eu vejo a hipnose da mesma maneira.

Uma ferramenta pode produzir resultados muito interessantes quando é utilizada de maneira ética.

E pode se transformar em instrumento de abuso quando alguém resolve utilizá-la para explorar outra pessoa.

Não dá para culpar a hipnose pelo que Michael Fine fez

Seria muito fácil pegar esse caso e concluir:

“Está vendo? Hipnose é perigosa e deveria ser proibida.”

Mas essa conclusão mistura duas coisas completamente diferentes.

Uma coisa é a capacidade de uma ferramenta.

Outra coisa é a intenção de quem a utiliza.

Se alguém usa persuasão para vender uma coisa que o cliente realmente quer, estamos diante de uma situação completamente diferente de alguém que usa persuasão para enganar e explorar.

O mesmo princípio vale aqui.

Não foi a hipnose que decidiu abusar das mulheres.

Foi uma pessoa que escolheu utilizar aquilo que sabia sobre hipnose de maneira criminosa.

Mas eu acho errado dizer que “não aconteceu nada”

Também existe outro erro que me incomoda.

Quando aparece uma história desse tipo, algumas pessoas respondem:

“Hipnose não faz ninguém fazer nada. Então isso é impossível.”

Eu acho essa resposta simplista demais.

Porque a evidência sobre hipnose mostra justamente que sugestões podem produzir alterações reais na experiência subjetiva e no comportamento.

Pesquisas contemporâneas continuam investigando exatamente como essas mudanças acontecem e por que algumas pessoas respondem mais intensamente do que outras.

Então eu não tenho problema em dizer:

Sim, eu acredito que a hipnose pode contribuir para tornar uma experiência sugerida muito convincente e até alterar comportamentos.

O que eu não afirmaria é que qualquer hipnotizador consegue controlar qualquer pessoa para fazer absolutamente qualquer coisa.

O caso de Michael Fine é assustador justamente por isso

Porque ele mostra o que acontece quando conhecimento psicológico, autoridade profissional e confiança são colocados nas mãos de alguém disposto a abusar deles.

A investigação começou com uma mulher desconfiada.

Ela gravou conversas.

Procurou a polícia.

Participou de uma operação.

Fine acabou preso.

Ele se declarou culpado.

E recebeu 12 anos de prisão.

Não estamos falando, portanto, simplesmente de uma história de internet sobre “um hipnotizador maluco”.

Estamos falando de um caso criminal que terminou com uma condenação e uma sentença concreta. A Associated Press informou na época que Fine se declarou culpado de acusações envolvendo seis mulheres e foi condenado a 12 anos de prisão, além de ser obrigado a se registrar como agressor sexual.

E talvez essa seja a maior lição de todas

Quanto mais poderosa uma ferramenta parece ser, maior deveria ser a responsabilidade de quem sabe utilizá-la.

Hipnose pode ser fascinante.

Pode produzir experiências absurdas.

Pode mudar a forma como uma pessoa percebe determinadas coisas.

Pode criar respostas que parecem automáticas.

Pode fazer alguém rir sem motivo, esquecer temporariamente algo, experimentar uma sensação ou entrar profundamente em uma imaginação guiada.

E, justamente por isso, não deveria ser tratada como uma brincadeira sem responsabilidade.

Conhecimento dá poder.

E poder sem ética vira abuso muito rápido.

Minha conclusão sobre o caso

Eu acredito que é possível produzir efeitos hipnóticos suficientemente fortes para que uma pessoa experimente uma sugestão como algo real.

Minha própria experiência com demonstrações, como a do coqueiro, reforça essa minha opinião.

Eu também acredito que outra pessoa poderia responder de maneira semelhante a uma sugestão parecida, embora não exista garantia de que a reação seria exatamente igual.

Isso é compatível com o que sabemos sobre as diferenças individuais na resposta à hipnose.

Mas eu não acredito que isso transforme o hipnotizador em um dono da mente alheia.

E muito menos acho correto usar a própria existência da hipnose para tentar diminuir a responsabilidade de alguém que utiliza essa ferramenta para cometer abuso.

No caso de Michael Fine, o problema não foi simplesmente ele saber hipnose.

O problema foi o que ele escolheu fazer com esse conhecimento.

E isso, para mim, resume perfeitamente a história:

A hipnose pode ser uma ferramenta poderosa.


Mas ferramenta nenhuma possui moral própria.


Quem segura a ferramenta é quem precisa ter responsabilidade.

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Observação: este artigo apresenta uma opinião sobre o fenômeno da hipnose, separando essa opinião dos fatos documentados sobre o caso criminal de Michael Fine. As imagens utilizadas são provenientes de material jornalístico da ABC News sobre o caso.



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